O espaço de divulgação da Comissão de Reeducação Ideológica e Propaganda d'O Partido

quinta-feira, agosto 10, 2006

Pequeno Manual do Pequeno Camarada (pMpC)

Capitulo (-) II

NOTA EDITORIAL: O ˝pequeno Manual do pequeno Camarada˝, apesar de obra elaborada e aprovada pela Comissao para a Reeducacao Ideologica e Propaganda, é passivel de multiplas interpretacoes por parte dos pequenos camaradas, especialmente aqueles na idade-da-inocencia-de-oiro. Por estas e por outras, o CRIP recomenda a sua leitura sob supervisao de um Camarada de reconhecida lucidez burocrática e capacidade cognitiva. O mesmo já nao se aplica aos Camaradas que optam por ler a obra para, de forma nostálgica, revisitar o pequeno Camarada que ha em cada um de nós.

Título: Camaradagem Envenenada.

Índole: Capítulo Negativista.

Publico-alvo: Maiores de 4 anos.

Observacoes: O segmento literário que se segue encontra-se contra-indicado aos pequenos camaradas leitores asmáticos ou com tendencia para desenvolver dificuldades respiratórias sob sugestao. Em caso de duvida, ler sob a supervisao de um camarada com treino em assistencia médica.
...

Após o habitual acordar com a luz solar salpicada de ruidos mundanos rotineiros, o pequeno camarada Esquilito limpou as beicas das papas de aveia e fez-se `a rua. Saudando repetidamente os outros pequenos camaradas que se dirigiam para a escola, onde dia-a-dia aperfeicoavam as suas aptidoes burocraticas, o camarada Esquilito interrogava-se como seria partilhar todas aquelas experiencias de camaradagem e aprendizagem com os restantes pequenos camaradas, especialmente o camarada Augustinho, por quem nutria um verdadeiro amor fraternal. Mas todos os dias eram iguais, e este nao seria diferente. Abdicaria mais uma vez de todas aquelas delicias para servir os restantes camaradas.
O pequeno camarada Esquilito era, de facto, um esquilo e tornava-o, per si, especial. Especial porque so esquilos e hamsters podem substituir as locomotivas na infante nacao da Serbolandia, tomada e governada por senhores de fardas azuis, com grande aptidao para o xadrez. Enquanto casamento perfeito entre o exercicio intelectual e o desporto livre de movimento activo abaixo do ventre, o xadrez ocupava grande parte do tempo dos senhores de farda azul, afectando a produtividade de todos os sectores da funcao publica da Serbolandia. Incluindo os maquinistas de comboios de longo curso. Era entao funcao de todos os esquilos e hamsters (e alguns canitos doentes, em alturas de maior demanda) garantir a locomocao das carroagens, especialmente durantes os campeonatos nacionais (bisemanais) de xadrez. Tarefa vital e recheada de reponsabilidade, portanto.
Todos as manhas, assim, o pequeno camarada Esquilito sentia os carris deslizarem por baixo das suas pequenas patas. Garantida a sua educacao pelo Grupo Educacional Movel da Serbolandia (GEMS – o maior grupo economico publico deste pais) atraves de licoes privadas nos seroes e fins-de-semana, o pequeno camarada podia dedicar todas as suas energias a servir a sua patria, tao boa que ela era. E era feliz assim. Era uma vida de alegria e entrega. Alem disso os esquilos e hamsters gozavam de reforma antecipada e beneficios fiscais especiais, reconhecidos e de aprovacao por todos os restantes camaradas. Era uma boa vida.
Nesta particular manha, o pequeno camarada Esquilito reparou que uma serpente o seguia. Tinha olhos grandes e um agradavel cheiro a flores, um odor semelhante a uvas espanholas. Amigo de todos os seus camaradas, Esquilito apresentou-se: ˝Camarada serpente, cheiras muito bem! Como te chamas?˝
˝Oh, que querido!...˝, guinchou a serpente. Em seguida torneou o seu corpo e replicou com um silvo: ˝Chamo-me Agueda. Mas nao sou tua camarada.˝
Tal resposta deixou o nosso pequeno camarada confuso. Nao era camarada? Entao?
˝Nao, nao, nao querido! Sou camarada!!!˝, atirou, assustada, perante o olhar interessado de alguns transeuntes. E continuou: ˝Claro, que parvoice meu tolinho, somos todos camaradas!... mas nao sou camarada deles!˝, acrescentou num tom de voz mais reduzido. ˝Somos diferentes sabes, eu e eles!˝
ATENCAO, PEQUENOS CAMARADAS LEITORES, A TODO O TIPO DE VIOLACAO DA NOMENCLATURA APROVADA!
Esquilito nao percebeu completamente a serpente, mas encontrava-se deliciado com aquela sua nova amiga. Devolveu um sincero sorriso `a serpente e prosseguiu, ˝Camarada Águeda, muito bom dia entao! Gostei de te conhecer e vou agora trabalhar. Adeus!˝, e seguiu para a Estacao de Comboios.
O nosso pequeno Camarada Esquilito era um feliz pequeno camarada. Ainda que todo o dia rodeado por sufocantes correntes de poeira, cego por minúsculos insectos que teimavam em nao se desviar e amassado pela dureza da gravilha e do aco, o nosso pequeno Camarada Esquilito demonstrava verdadeiro orgulho e paixao pela sua prestigiada actividade. Os espirros incessantes (provocados pelo pó que lhe invadia as narinas) eram apenas mais uma das benesses daquele trabalho. ˝Por cada espirro, mais uma moedinha da Fada Forreta˝ - pensava alegremente!
No entanto, decorridas 3 horas de intensa correria na companhia do hamster Camarada Cardoso, os 5 vagoes que faziam a ligacao internacional Serbolandia - Macarrónia comecavam a pesar, e nao tardou a haver uma pausa. Absorto no jogo de xadrez que decorria `a sua beira (quartos-de-final dos Regionais Inter-Alfandegários), o pequeno Camarada Esquilito nem se deu conta da esguia presenca da serpente que atrás dele se encontrava impaciente.
˝Foste muito rápido a terminar a nossa conversa, nem sequer te apresentaste! Chamas-te…?˝
˝Camarada Esquilito, amiga Camarada Águeda! Muito prazer! Gosto muito de ti! És bem-cheirosa!!!˝, explodiu o nosso pequeno camarada, ainda meio atordoado com a surpresa.
DOMINEM A VOSSA INGENUIDADE PERANTE ESTRANHOS `A MÁQUINA BUROCRÁTICA, PEQUENOS CAMARADAS!
A cobra soltou novo silvo e rapidamente replicou ˝Lá estás tu com isso dos camaradas! Nao sou camarada de ninguém! E tu, ao fim ao cabo, também nao! Chamas-te Esquilito, só Esquilito! Qual camarada…˝
Mais surpreso ainda, o pequeno camarada arregalou ainda mais os olhos e pausou por alguns momentos, antes de recitar de forma quase mecanica: ˝Camarada faz parte da nomenclatura vigente da nossa sociedade burocrática. É parametro essencial para a…˝
˝Sim, sim, sim!...˝, interrompeu a serpente com desdém. ˝Sei isso tudo, e fico satisfeita por verificar que o aprendeste tao bem. Mas para que? Para que é que precisas que te chamem por essa palavra? É um atilho. Pior, é um empecilho, porque nao traz nada de novo, a unica coisa que faz é arrastar-se nos nomes de todos nós, atrasa-nos todos os dias, um pouco de cada vez. Nao tenho razao?˝
A NOMENCLATURA NAO INTERFERE NEM ATRASA A ESTRUTURA! PEQUENOS CAMARADAS, NOMENCLATURA É A BASE DA ESTRUTURA!
O pequeno Camarada Esquilito estava confuso, a serpente parecia certa, nao sabia muito bem. Era certo que toda a gente se tratava assim, mas como tinha tudo comecado nao sabia, nao sabia mesmo. Mas entao também podia tratar os camaradas daquela forma?
˝Podes e deves, Esquilito! Decerto nao ofendes ninguém e vais ver que te dá um maior sentido de independencia, de liberdade! A liberdade é um direito, nunca ouviste isso?˝, rematou a serpente de forma convincente. A serpente Águeda tinha razao. O pequeno camaradara estava agora certo disso.

PESE TAMBÉM A SUA INGENUIDADE, O CAMARADA ESQUILITO DESRESPEITOU A NOMENCLATURA VIGENTE. O CAMARADA ESQUILITO NAO É UM BOM PEQUENO CAMARADA!

7 Comments:

Blogger Camarada Pala Pala said...

Sendo eu uma pequena camarada fiquei muito confusa e tive um valente ataque asmático enquanto li esta grande obra literária. Felizmente precavi-me e pouco antes fui ao meu médico de família pedir a receita para a recarga da bombinha de ar que tenho desde os meus tempos de meninice e que sempre me acompanhou em aventuras escuteiras. Emocionei-me muito a ler este texto e aparente a bomba também porque deixou de funcionar e quase que me matou em tons de roxo e lilás.

Espero que esta estória seja fictícia e usada unicamente com fins pedagógicos. Que seja mito rural burocrático e que o usem simplesmente para assustar as nossas crianças levando-as a não trocarem nada com estranhos, nem nome.

8:08 PM, agosto 12, 2006

 
Blogger Camarada Protocristo said...

E ainda agora comecámos, camarada, ainda agora comecámos...

Um bem-haja.

11:51 PM, agosto 16, 2006

 
Blogger Camarada Pequenito Balariu said...

Um dia fui um grande pequeno burocrata quando fui buscar o papelito dos depósitos à minha mãe no banco. Infelizmente a informatização tinha deixado esses papelitos como mera decoração nas bancadas. A minha boa vontade foi maior que a minha eficácia burocrática

6:29 PM, agosto 20, 2006

 
Blogger Camarada Cláude said...

Lembro-me da primeira vez que tive contacto com o papel azul de 25 linhas... Tinha estado doente e levei à professora um papel dos meus pais a dizer isso mesmo. E ela disse-me que não podia ser, que tinha que entregar um atestado médico em papel azul de 25 linhas. Fui então à papelaria tentar comprar essa bela folha. A senhora da papelaria tentou impingir-me primeiro uma folha azul com apenas 24 linhas e depois uma rosa com as linhas certas, mas eu disse-lhe que tinha que ser azul e ter 25 linhas. Fui depois ao médico, que estranhou eu não estar doente e eu expliquei-lhe que já tinha estado e que ele tinha que escrever isso no papel que lhe dei para entregar na escola. Depois de ele o ter feito, levei o papel à minha professora com o selo apropriado e aí soube que o meu destino e a burocracia estavam para sempre unidos.

9:13 PM, agosto 20, 2006

 
Blogger Camarada Pala Pala said...

O meu primeiro contacto com a burocracia foi quando o meu paizinho, grande burocrata cheio de boa vontade, me levou ao banco para eu abrir uma conta para mim mesma.

Foi uma alegria grande a que senti quando tive que assinar 5 vezes seguidas em vários formulários diferentes o meu nome (que em tempos negros tinha origens monárquicas) completo. Depois alegremente deram-me um cartão que eu desmagnetizei de imediato com o imanzito que transporto dentro de mim que faz com que seja várias vezes atropelada no passeio ou arremessada aos candeeiros de pé alto em metal da antiga Lisboa.

Após o desmagnetizo do cartão tive que voltar ao banco e fazer tudo de novo. Ao ingressar n'O Partido mudei o nome para me esquecer dos tempos negros pré-burocracia e voltei ao banco para corrigir a minha assinatura em todos os formulários.

Graças ao meu paizinho desde mil-novecentos-e-troca-o-passo que a burocracia me acompanha para onde quer que vá. VIVA O O.P.

3:47 PM, agosto 21, 2006

 
Blogger camarada Atumigrejamana said...

Eu descobri que a burocracia em mim era um must quando ainda era bem piqueno... Lembro que o primeiro documento burocratico que possui foi a tao mitica e saudosa caderneta escolar!! Lembro-me de ficar fascinado a olhar para os papeis azuis que serviam para justificar as faltas!! Uma vez faltei a escola, apresentei um atestado do medico a minha prof, mas o que eu n sabia é q juntamente com esse atestado tinha de apresentar o tal papelinho azul da caderneta assinado plo meu enc. de educaçao. Sendo assim, tive de ir a secretaria da escola para que o presidente do conselho directivo me passasse outro papelinho para que o meu pai assinasse, papelinho esse que tinha de ser autenticado pla funcionaria da papelaria da escola!!!Todo este turbilhao burocratico maravilhou-me, crescendo logo em mim um burocracismo sem precedentes ainda era eu um catraio...

12:10 AM, agosto 22, 2006

 
Blogger Camarada Pala Pala said...

Vejo que o seu conceito de burocra'cismo' camarada, já é mesmo muito antigo.

5:42 PM, agosto 22, 2006

 

Postar um comentário

<< Home